POST #01

“In this way TEXT RAIN comes to mean what the viewer/user wills it to mean” [1]

Bolter e Gromala, no seu livro, afirmam que a instalação de Camille Utterback e Romy Archituv só vive com a interacção das pessoas, tornando-se deste modo não só numa expressão dos seus autores como a dos seus utilizadores. Criando assim uma relação entre a instalação, interface/software, e o seu utilizador.
Somos feitos de relações que mantemos não só com pessoas mas também com objectos, bens materiais com os quais nos confrontamos no quotidiano. Uma das relações mais duradoras que o Homem mantém no séc XXI é o seu computador, apercebendo-nos da sua capacidade não só de apresentação como de representação[1], tornou-se quase imprescindível.

“Using a computer has become a multimedia experience- an experience so compelling that we in the industrialized world now surround ourselves with digital design.” [1]

Esta relação progrediu, desencandeando-se numa quase dependência dos Media Digitais. Actualmente, a maior parte das pessoas possui um computador permitindo o contacto permanente com o Mundo Digital.

“Connectivity is really about the fact that technology connects people in a virtual space like on the telephone- you and I are connected now in a virtual space.”[2]

Mas ao estarmos em contacto 24 horas sob 24 horas com o Mundo Digital não estaremos nós a perder grande parte das experiências do Mundo Físico? Sentimo-nos cobiçados por este Mundo Digital, onde inúmeras aplicações lutam pela nossa atenção, somos diariamente assediados por mensagens que nos perguntam se não estare- mos interessados em experimentar a Aplicação X que faz com muito mais eficácia o que a Aplicação Y e W fazem.
Mas nós permitimos que esta relação de excessos continue. Nós criamo-la. Tornámo-nos sendendos de mais e isso reflectiu-se na criação de novas aplicações preocupadas em nos manter interessados.

“We live in a media-saturated enviroment, in wich many different forms and technologies compete for our attention (...) Computer applications can no longer afford to be (if they ever were) simple channels for the delivery of information...”[1]

Não se pode negar que os Media Digitais permitem e oferecem várias experiências que sem a sua existência nunca experienciaríamos, mas também não se pode afirmar que estes não nos recusa outras.

[1]BOLTER, Jay David and GROMALA, Diane; Windows and Mirrors: Interaction Design, Digital Art, and the Myth of Transparency; MIT Press 2005.
[2]NEMEROV, Alexandra; Interview: Golan Levin; February 26, 2007.

POST #02

O que é a página?

s.f. 1 qualquer das duas faces de uma folha de papel ou de uma folha vegetal; 2 INFORMÁTICA sítio na Internet; 3 o que está escrito num dos lados de uma folha; 4 [fig.] excerto de um texto; trecho; 5 [fig.]período ou facto notável da biografia de um homem, de uma família ou de uma nação.[1]

Por excelência a página é o local da materialização das ideias, começa tudo por ser materializado numa página, quer seja esta física ou digital. Esta tem a sua existência determinada por um leitor, se o leitor não existir, não ocorre o relacionamento de que esta necessita. Quando se une um conjunto de páginas, dá origem a um suporte físico denomin- dado de livro. Este é regido por uma ordem canónica de leitura[2] maioritariamente impostas pelo Autor. Mas até que ponto é que este tem controle sob o leitor?

“how and to what extent does the writer control the reader’s experience of reading? To what extent does the reader actively participate in choosing his or her path through the text?”[2]

Platão, nos seus escritos, tenta subtilmente controlar a experiência do leitor, recriando o diálogo filosófico, dotado naturalmente de espontaneidade. Deste modo, Platão traça uma linha de pensamento bastante límpida, mas imerso na leitura, o leitor pode chegar às conclusões que quiser.

“Plato as a writer sets up his path, but he cannot be sure that the reader is following. The reader is free to make all sorts of misunderstandings that the text separated from its author cannot correct.”[2]

Apesar do diálogo nos fornecer uma escrita mais natural, o leitor nunca vai ter uma participação totalmente activa. A conversa escrita que decorre no livro, não inclui o leitor, este não pode intervir fazendo questões ou dando a sua opinião na espera que o sábio Sócrates lhe responda.
Bolter faz uma questão pertinente quando pergunta,

“Why should a writer be forced to produce a single, linear argument or an exclusive analysis of cause and effect, when the writing space allows a writer to entertain and present several lines of thought at once?”[2]

Ao contrário do que Derrida afirmava, a escrita não linear não foi a morte dos livros, estes apenas foram influenciados pelos media electrónicos, podendo incoporar tanto a leitura linear ou não linear.

A leitura feita a partir de um computador, permite com muito mais facilidade a leitura não linear. O leitor pode traçar a sua linha de pensamento, a partir de X , quer agora ler Y, dotando-o de muito mais controle, tornando-se quase o editor da informação. Isto é possível devido ao hipertexto, com este o leitor é integralmente responsável pelo caminho que está a seguir. Como se estivessemos a fazer perguntas ao medium, e este responde-nos de acordo com o que perguntámos “clicando” nos links.
Um diálogo entre Homem e Medium, um diálogo imperfeito, no meu ponto de vista, pois uma máquina não substitui o Homem em campos intelectuais. Mas um novo diálogo do qual podemos certamente aprender.

[1]Dicionário da Língua Portuguesa; Porto Editora; 2003
[2]BOLTER, David Jay; Writing Space, The New Dialogue

POST #03

Emergiram do desenvolvimento tecnológico, são caracterizados pelo acesso a conteúdo on-line a qualquer momento, regendo-se pela interacção do seu utilizador. Novos Media são "objectos" que nos permitem a interacção digital. Revolucionaram muitos campos, a forma como interagimos com as outras pessoas, a forma como temos acesso à informação, entre outros. Ao longo da evolução o Homem sentiu necessidade de guardar informação, eventos, documentos importantes. Sentiu necessidade de criar um arquivo. Ao pensarmos em arquivo, a imagem que nos surge é um armário com várias gavetas, estas por sua vez com separadores onde arquivamos a informação conforme nos for mais conveniente. Os novos media vieram permitir uma nova forma de arquivar informação, que antes não havia maneira de arquivar. Sigamos o exemplo da televisão. O anúncios, programas que vemos na televisão, estes são perpetuados em servidores, arquivos dos canais de televisão, mas o publico não tem acesso a estes ficheiros. Hoje em dia podemos gravar programas nas nossas "boxes" mas são ficheiros temporários, algum problema técnico, esta vai para arranjar e todos os ficheiros desaparecem. Mark Greif, em WETUBE, escreve como o YouTube, nos dias de hoje, pode ser um arquivo viável para a televisão. Reencontramos anúncios que passavam quando éramos crianças, jingles que marcaram a nossa infância, e por aí adiante. Tudo graças a pessoas que tiveram a preocupação de guardar esses excertos que os marcaram, documentando-os e partilhando-os num arquivo on-line. Finalmente tendo contacto com o que havia sido perdido e invisível para nós, excepto na nossa mente[1].

[1]GREIF, Mark; WETUBE; Disponível em: http://www.papermonument.com/issue-two-preview/wetube/ [consultado em 1.Nov.2012]

POST #04

Harold Innis afirma que a estabilidade de uma cultura depende do equilíbrio e proporção dos seus media, defendendo que estes se dividem em duas categorias, os media de tempo e os media de espaço. [1] Os media que controlam o tempo são de porte pesado e de difícil transporte, não incentivando a expansão territorial. Ao contrário destes, os media que controlam o espaço são leves, de fácil transporte, permitindo a fácil expansão, o papel é um medium que controla o espaço. Apesar de Innis preferir a oralidade à escrita, afirmando que esta é demasiado fria e impessoal, o livro é um meio de meio de transmitir conhecimento que cumpre os requisitos de fácil transporte.

“The monopoly of knowledge centering around stone and hieroglyphics started getting competition from papyrus as a new and more efficient medium.”[2]

Assim como ocorreu a evolução da escrita na pedra para o papiros, ocorreu a evolução do papel para os meios digitais. Nos dias que correm, com os computadores pessoais, smartphones, e tablets permitem-nos levar connosco não só um livro mas como uma biblioteca inteira. Num pequeno objecto, podemos armazenar uma vasta quantidade de informação, transportamos connosco desmedidas fontes e referências. Objectos pequenos e leves com uma curta esperança média de vida, mas que têm um conteúdo muito vasto. Quando ligados à rede, não há fronteiras para o seu "miolo", e mesmo desconectados à Internet, o nosso computador pessoal contêm inúmeros ficheiros que nos concedem conhecimento. Os novos media contêm ambas as características de um médium de tempo e de espaço, estarão eles a conquistar o tempo e o espaço?

[1]INNIS, Harold A.; The Bias of Communication

POST #05

Bolter e Gromola afirmam que o computador, assim como os livros, filmes e a televisão, não é um local imparcial onde colocar informação. Assim como o designer faz a paginação do conteúdo do livro de acordo com a sensação que quer transmitir ao seu leitor, o mesmo processo é utilizado na organização de conteúdo on-line. Oferecendo, deste modo, ao utilizador uma experiência ao deparar-se com o conteúdo. A Internet é um vasto local onde nos deparamos com distintos web sites, cada um com o seu número de seguidores diferentes. A Internet produziu diversas maneiras de representar inúmeros assuntos.

"For example, there are news and information Web sites modeled on newspapers and television, and in fact the major newspapers and television news organizations all have their own Web sites."[1]

Seguindo o mesmo exemplo de Bolter e Gromala, os web sites de jornais e de canais de televisão. Sendo um web site de informação esperamos um layout especifico, com os conteúdos bem organizados e com um design bastante limpo. Uma plataforma on-line de um suporte físico, que é o jornal ou uma revista, que conhecemos bem, familiarizados com o seu layout, supomos que a versão on-line seja semelhante à física. Em relação a uma plataforma de um canal de televisão, os artigos devem ser acompanhados por um video com base nessa mesma informação. Estas expectativas foram criadas porque conhecemos extremamente bem estes media de comunicação.

[1]BOLTER, Jay David and GROMALA, Diane; Windows and Mirrors: Interaction Design, Digital Art, and the Myth of Transparency; MIT Press 2005. [Capítulo4. Magic Book, The New and the Old in the New Media]

POST #06

Ambos Barthes e Enzensberger tem capítulos a cerca do desaparecimento do Autor. Em Death of the Author, Barthes fala da morte do autor como um ser criativo que expressa a sua visão interior. A escrita destrói a voz e a origem da ideia. A origem da ideia provém da língua, não sendo assim o autor o responsável pelo texto que o leitor lê. Barthes defende que o leitor não deve tratar o texto como algo que uma pessoa especifica escreveu mas sim como algo que ganha vida de acordo como o próprio leitor a interpreta. O leitor é o responsável pelo texto.

“A text is made of multiple writings, drawn from many cultures and entering into relations of dialogue, parody and contestation, but there is one place where this multiplicity is focused and that place is the reader, not, as was hitherto said, the author.”[1]

Enzensberger, em "Goodbye, Author", aproxima-se da mesma linha de pensamento de Barthes. Partindo da estrutura igualitária dos Novos Media conclui que todas a pessoas podem fazer parte desta estrutura. Não sendo uma área reservada somente a certos grupos. No ambiente colectivo dos Novos Media, o leitor pode tornar-se o autor/produtor. Num ambiente de participação constante, o utilizador adopta a postura de autor quando partilha informação a partir dos Novos Media.

"The new media are egalitarian in structure. Anyone can take part in them by a simple switching process."[2]

[1]BARTHES, Roland; “The Death of the Author", Image Music Text [2]MONTFORT, Nick, WARDRIP-FRUIN, Noah; The New Media Reader; The MIT Press; 2003 [página 265]

POST #07

Nos dias que correm é bastante comum acedermos à informação que procuramos online. Muitos jornais anunciaram que iam apostar nos meios digitais, como é o caso do Público, alguns afirmando mesmo que iriam acabar com a versão física mantendo só uma versão digital das suas edições, como é o caso da Newsweek. Com a facilidade que hoje em dia temos à informação, estas mudanças são "normais", mas como afirma José Vítor Malheiros, "Mas o fundamental não é isso. O fundamental no jornalismo é aquilo que só o jornalismo faz. (...) as pessoas continuam a querer informação rigorosa e credível, autores responsáveis, investigação independente, fiscalização dos poderes, boas histórias, boas reportagens, boas fotos, boas análises."[1] Se o jornalismo for bom, as pessoas continuaram a comprar a informação, quer seja esta em formato físico, quer digital. O jornalismo não irá acabar, este simplesmente terá de se adaptar às novas formas de comunicação que os Novos Media permitem. Os Novos Media perpetuam a informação, esta não está tão sujeita ao desaparecimento como está nos suportes físicos.

“The new media are oriented towards action, not contemplation; towards the present, not tradition. Their attitude to time is completely opposed to that of bourgeois culture, which aspires to possession, that is to extension in time, best of all, to eternity.”[2]

Mas não creio que os suportes físicos de informação vão acabar tão cedo. Por muito que os meios digitais sejam catalisadores de informação, estes não substituem os meios físicos. Um jornal é táctil, o utilizador cria uma relação com o objecto pois este desperta nele sensações, que artigo on-line não desperta tão facilmente.

[1]PEREIRA, João Pedro; "Na internet ou no papel o futuro não será igual para todos os jornais", Público; 3.Out.2011
[2]ENZENSBERGER, Hans Magnus

POST #08

Somos seres sociais, para uma sociedade se sustentar a si própria é necessário haver relações humanas. Com a evolução dos Novos Media, estas relações mudaram. Muitas delas passaram a ser realizadas através de meios digitais. Estes vieram facilitar as comunicações. Antigamente a maneira como o Homem comunicava limitava-se a relações "cara a cara" ou através de cartas. Estes meios limitavam as nossas comunicações, barreiras eram criadas. Estas barreiras, nos dias que passam, foram desaparecendo. As pessoas podem comunicar em tempo real, estando em países, ou até mesmo continentes, diferentes. A distância diminuiu, os Novos Media vieram mudar a interacção humana, tornando-a mais rápida e eficaz.

"We are born into a box of time and space. We use words and communication to break out of it and to reach out to others.”[1]

Apesar da facilidade que os Novos Media trouxeram às comunicações os fundamentos da interacção humana continuam a ser os mesmos que eram antes do seu aparecimento. As bases da nossa interacção continuam os mesmos, continuamos a depender da linguagem corporal, linguagem, palavras e a relação cara a cara que nos permite identificar as expressões faciais do outro. Os Novos Media vieram facilitar as nossas comunicações, mas não passa de uma plataforma, quando há a opção entre a interacção real e a virtual, creio que a real ainda seja considerada primordial.

[1]EBERT, Roger; Remaking my voice; TED 2011

POST #09

Usar ou não usar Skeumorph? Eis a questão. Skeumorph ou skeumorphism, é um termo de Design utilizado para um software quando este mímica uma parte, de um objecto "real", funcionalmente necessária. Rodeados de novas tecnologias, muitas das aplicações, para smartphones e tablets, proporcionam-nos um sentimento de familiaridade oferecendo-nos um design feito com base no skeumorphism. Com um propósito bastante emocional, ou mesmo o muito característico saudosismo português, tenta criar uma ligação com o utilizador, relembrando-o da utilização dos objectos que usava anteriormente. Devido à sua aparência, intuitivamente, o utilizador sabe como interagir com a aplicação. Andrew Allen, co-fundador da empresa FiftyThree e criador da aplicação Paper, quando interrogado de o porquê da utilização de skeumorphism, na aplicação respondeu dizendo,

“When people talk about skeumorphism, they’re often talking about functionality—maintaining ornaments of the past even though they no longer have function. But that’s taking a very narrow view of design. They’re forgetting about the emotional impact, the higher-level needs that we satisfy through design. So for us, the idea of showing a journal satisfies emotional aspects you couldn’t through a Plus button. We wanted to bring back a journal with sequential pages—bring the user back to a familiar place.”. [1]

O skeumorphism serve exactamente para o utilizador não se sentir desconfortável ao utilizar a aplicação, para se relembrar de objectos que este já conhece e com os quais já é familiarizado. Criando assim uma relação mais forte e intuitiva entre utilizador e interface.

[1] MANJOO, Farhad; Should a Calendar App Look Like a Calendar?;Disponível em: http://www.slate.com/articles/technology/technology/2012/11/
scott_forstall_fired_skeumorphism_the_design_concept_that_s_tearing_apple.html [consultado a 2.Nov.2012]

POST #10

"Great art is always flanked by its dark sisters, blasphemy and pornography."[1]

No ínicio do aparecimento da Internet, muitos associavam os seus utilizadores a programadores, "geeks" e a amantes de pornografia. Os produtores de material pornográfico foram dos primeiros a ter sucesso nos "velhos" e Novos Media. Todas as tecnologias, na sua fase inicial, passaram por um período de resistência que foi desaparecendo devido a novos seguidores que ofereciam e procuravam conteúdos sexuais. Na década de oitenta, o VHS revolucionou a indústria pornográfica. Na década seguinte, os sites pornográficos estabeleceram-se como líderes no Mundo virtual da Internet. Em 2000 cerca de 70%, do dinheiro gasto on-line era utilizado em pornografia.[2] Apercebendo-se de que poderiam aceder à pornografia a partir de casa, sem ter de ter de sair e alugar a cassete, as pessoas adoptaram o conforto da privacidade que a Internet oferecia. Actualmente os tablets, ou os gadgets utilizados para armazenar e-books, permitem o mesmo nível de privacidade na aquisição de romances eróticos. Doreen DeSalvo, revendedora de livros eróticos, diz que as vendas, desde à dois anos, aumentaram entre 20 a 30%.[3] Sendo ainda considerado, por muitos, tabu, ler romances de teor erótico em público, a sua compra on-line, e leitura em tablets, permitem a sua leitura em locais públicos. Não há maneira de desmitificar o que a pessoa está a ler, quando lê num dispositivo digital, não existe nenhuma capa, nem um livro físico para denunciar a sua leitura.

[1]PAGLIA, Camille; Sexual Personae
[2]BARSS, Patchen; "The Erotic Engine"- How Porn Changes Everything; Disponível em: http://www.cnbc.com/id/43396652/The_Erotic_Engine_How_Porn_Changes_Everything [consultado a 4.Nov.2012]
[3]CANTWELL, John; She downloaded with bated breath.